SABER
Início | Saber | Ambiente | Qualidade do ar ambiente

17/02/2010
Projecto SaudAr - Qualidade do ar ambiente e saúde pública
Um caso de estudo de exposição à poluição atmosférica
Carlos Borrego

O projecto SaudAr (Borrego et al., 2008) é um estudo interdisciplinar, financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, envolveu investigadores da área da poluição atmosférica da Universidade de Aveiro e da área da saúde da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, tendo usado como caso de estudo a cidade de Viseu.

A investigação visou o desenvolvimento de elementos de base científica que pudessem ser considerados e incorporados em planos de desenvolvimento local e no exercício do planeamento territorial à escala urbana, contribuindo para o progresso sustentável dessa região. Pretendeu-se assim, contribuir para a melhoria da qualidade de vida das populações abrangidas, assente em dois aspectos considerados fundamentais: a qualidade do ar e a saúde. Metodologicamente, o trabalho envolveu quatro etapas distintas que se ilustram na Figura I.

Este artigo incide sobre a metodologia de cálculo da exposição, parte integrante da 2ª etapa do projecto.

População-Alvo

A população-alvo deste estudo consistiu em cerca de 60 doentes asmáticos do 1º ciclo do ensino básico das escolas do concelho de Viseu. No âmbito do estudo, monitorizaram-se dois grupos de crianças, entre os 6 e os 12 anos e os ambientes que frequentam. Com o objectivo de caracterizar a população, no que diz respeito à sua saúde respiratória, e o domínio de estudo, em termos de qualidade do ar, foram definidas quatro campanhas experimentais, no Inverno e no Verão de 2006 e 2007.

Metodologia

Para a estimativa da exposição de cada criança aos vários poluentes atmosféricos realizaram-se duas tarefas principais:

a) A definição do perfil diário de actividade/tempo para cada criança para uma semana escolar típica de Verão e de Inverno, de modo a identificar os microambientes frequentados pelas crianças. Este perfil diário de actividade/tempo foi estabelecido através de entrevista pessoal aos pais e crianças.
b) A caracterização da qualidade do ar em cada um dos microambientes identificados. Esta realizou-se através da medição no local ou de modelação da qualidade do ar e utilização de relações exterior/interior para os locais onde a medição não foi possível, e que tinham sido geo-referenciados.

Medições e cálculos

As medições de poluentes atmosféricos realizaram-se durante as quatro campanhas experimentais (Borrego et al., 2008). Mediram-se em contínuo as concentrações no ambiente exterior de partículas (PM10), ozono (O3) e óxidos de azoto (NOx), em três pontos da cidade, dois dos quais localizados nas escolas do estudo. Definiu-se uma grelha de 20 pontos sobre a cidade, onde se colocaram equipamentos passivos a amostrar ozono e dióxido de azoto com médias semanais.
Mediram-se as médias diárias de partículas no interior e exterior das escolas. Tanto no interior das escolas como no interior das habitações das crianças, foram medidas as concentrações de O3, NO2, benzeno, tolueno, etilbenzeno e xileno (BTEX) e formaldeído, por amostragem passiva com médias semanais.
Para caracterizar a qualidade do ar nas áreas não monitorizadas aplicou-se o sistema de modelos regionais MM5/CHIMERE, com o qual se simularam os períodos das quatro campanhas experimentais.

Depois de definidos os perfis actividade-tempo e as concentrações dos diversos poluentes, em cada momento e em cada microambiente, calculou-se a exposição individual de cada criança a cada poluente.

Resultados
Os resultados obtidos por entrevista permitiram concluir que as crianças têm um perfil de actividade muito semelhante entre elas. De notar também que o tempo passado em espaços interiores é muito elevado, da ordem dos 97% no Inverno e 95% no Verão.

A Figura II ilustra perfis actividade tempo para a semana e fim-de-semana típicos de Inverno e Verão.

A análise dos resultados de qualidade do ar obtidos permite concluir que, com excepção de casos pontuais, os problemas de poluição atmosférica identificados em Viseu consistem em elevadas concentrações de PM10, quer em ambiente exterior, em especial ao início da noite, quer no interior das salas de aula.
As elevadas concentrações nocturnas de partículas no exterior que foram medidas na campanha de Inverno estão associadas à combustão residencial para aquecimento (lareiras e fogões de sala), prática muito comum na região.
Ocorreram ainda ultrapassagens ocasionais dos valores limite de benzeno medidos no interior das habitações.

Os resultados de qualidade do ar obtidos por modelação estão de acordo com os resultados das medições identificando-se as PM10, como o único poluente que atinge concentrações preocupantes à luz da legislação vigente.
No Quadro I apresentam-se os resultados da média da exposição individual calculada para cada um dos poluentes para uma semana escolar típica de Inverno e de Verão de 2006 e 2007.
De acordo com o conhecimento actual, e confirmando os resultados da avaliação da qualidade do ar, o único valor de exposição que suscita preocupação é o da exposição a PM10, em que o valor apontado pela OMS para a média anual é 20 µg.m-3.  A exposição média calculada a este poluente é cerca de 50 µg.m-3.h, fazendo supor que a média anual estará também muito próxima deste valor. Valores desta ordem de grandeza foram já encontrados em estudos realizados em Portugal (Ferreira, 2007) e em outros países da Europa (Hänninen et al., 2005).

Conclusão

De um modo geral, verificou-se que a qualidade do ar em Viseu é boa, embora se verifique a ocorrência de episódios de poluição atmosférica resultantes de concentrações elevadas de partículas, em especial no Inverno. Ainda em relação a este poluente, verifica-se que os níveis no ar interior das escolas são superiores aos observados no exterior, demonstrando a importância das fontes de emissão interiores. Os valores reflectem-se na exposição das crianças, tendo-se verificado que as que vivem em zonas urbanas estão mais expostas a este poluente do que as que habitam em zonas suburbanas.

Apesar da boa qualidade do ar, as correlações entre as variáveis médicas e ambientais (em particular COV) apontam para que mais exposição à poluição conduz a resultados médicos que indicam mais gravidade da doença, por exemplo, exposição ao benzeno e a variação do peak expiratory flow tem uma correlação R=0,70, enquanto para a dose inalada de tolueno e a variação do peak expiratory flow é de R=0,77.

Este projecto permitiu identificar um conjunto de linhas de orientação passíveis de serem adoptadas pelos diferentes grupos de interesse: a criança asmática e sua família, a comunidade escolar, arquitectos e engenheiros, técnicos camarários, planeadores e urbanistas, médicos e outros profissionais de saúde.
Viseu é uma cidade de média dimensão, idêntica a tantas outras no panorama nacional. Alguns dos problemas identificados nesta cidade deverão ser comuns a outras cidades, para além das situadas em zonas de maior pressão urbanística e industrial (por exemplo, na faixa litoral), que apresentarão já pior qualidade do ar, maiores níveis de exposição e consequentes efeitos na saúde.

Este trabalho deverá ser encarado como um estudo piloto para outras cidades do país, mas também para apoiar os decisores políticos de Viseu, dando orientações para uma cidade com um ambiente ainda mais saudável. A aplicação desta metodologia inovadora noutras cidades de Portugal é uma mais-valia para a relação ambiente/saúde.

Ler também:
  -  Exposição a poluentes atmosféricos em zonas urbanas
• Água
• Ambiente
• Biodiversidade e paisagem
• Construção e arquitectura
• Energia
• Resíduos
• Sustentabilidade
• Ciência
SABER
Pela Eurodeputada Maria da Graça Carvalho
AGENDA

9 a 10 Abril de 2014.
 
BLUE LIFESTYLE
• Ambiente
• Decoração - tendências
• Hotel
• Moda - shopping
• Moda - tendências
• Noite&Dia
• Restaurantes
• Spa
• Viagem
Vintage
Móveis de outros tempos
 
SONDAGENS
SUGESTÃO

Livro
Guide to Natural Housekeeping
 
Canais
Directórios
Apoios
My Portal
Quem Somos