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Henrique Souto
15/09/2011
“Não sou conhecido pelo meu optimismo, mas devíamos ter muito mais cuidado”
Carlos Teixeira Gonçalves
Henrique Souto ganhou, em 2008, o International Garden Photographer of the Year. Os vencedores de 2010 estão expostos, desde hoje (dia 15) até 27 de Novembro, no Palácio de Monserrate, em Sintra, e foi lá – enquanto decorria o casamento de um casal irlandês – que entrevistámos o único português que conseguiu este prémio. Henrique Souto é geógrafo, professor (de políticas ambientais) e fotógrafo já desde menino. Além disso, é um bom conversador: política, ambiente, blogues e também um pouco de fotografia em meia hora.
É geógrafo e professor universitário. Como é que surgiu esta dedicação à fotografia?

Algumas das recordações mais antigas que tenho são a tirar fotografias. Não sei porquê, acho que estas coisas não têm uma explicação. Mas lembro-me, quando tinha cinco anos, do prazer imenso que era pegar na máquina do meu pai para tirar fotografias. Nasci a gostar de fotografia.

Então faço-lhe a pergunta ao contrário. Porque decide ser geógrafo?

Gosto demasiado de fotografia para me dedicar a tempo inteiro.

A profissão é outro lado...

Exactamente. Há um prazer que se tem enquanto amador que, quando se faz daquilo uma profissão, deixa de se ter. Nunca pensei em abraçar a carreira de fotógrafo, apesar de me considerar fotógrafo.

Pois. Era isso que lhe ia perguntar. O que se considera: geógrafo, professor, fotógrafo...

Eu considero-me geógrafo e professor com uma grande paixão pela fotografia, o que, aliás, casa. Profissionalmente, utilizei e utilizo a fotografia para ilustrar.

Pergunto-lhe se, quando venceu o International Garden Photographer of the Year (IGPOTY), isso mudou a sua percepção. Ou a sua relação com a fotografia manteve-se igual?

Não, mantém-se. Essas fotografias de folhas [com que ganhou o prémio], que é uma coisa pensada, entre 2006 e 2008, pressupôs alguma reflexão, trabalho, tentativa e erro, e eu achava que tinha ali qualquer coisa que era interessante. O meu objectivo ao concorrer ao prémio foi saber, por um júri que eu achava competente, se eram mesmo boas. E pelos vistos eram [risos].

Mas mudou alguma coisa desde a atribuição do prémio?

Não, acho que não. A minha profissão é muito exigente e aquilo que eu gostaria de fazer muitas vezes não é possível. Se reparar, o portfólio é um trabalho de estúdio, é um trabalho feito em casa...

Não tem jardim?

[Risos] Neste momento tenho meio jardim, faço alguma agricultura biológica, mas posterior a 2008.

Naquela altura não tinha jardim.

Não.

E como surge a vontade de fotografar jardins?

É o gosto pela natureza, claro. Eu gosto muito mais de estar no exterior do que no interior.

Peço desculpa por estarmos dentro da sala [risos]...

[Risos] De facto, sinto uma atracção pela natureza. Talvez por em menino ainda ter subido às árvores... Agora as crianças não sobem. Agora não se pode sair de casa, quanto mais subir a uma árvore, não é?

Em alguns sítios já há poucas árvores também.

Pois. Ainda vai havendo algumas. Eu sempre gostei muito do ar livre e do contacto com a natureza.

Essas fotografias de que se lembra, de quando tinha cinco anos, já incidiam sobre esta temática?

Não, eram situações do quotidiano. A fotografia nessa altura era diferente. Hoje democratizou-se, toda a gente tira fotografias. Naquela altura era caro. Tirar uma fotografia era um ritual.

Já viu os vencedores deste ano do prémio?

Sim, já vi.

E gostou?

Claro, obviamente. A este prémio concorrem os melhores na área da fotografia de jardim e de natureza. O resultado só pode ser bom. E sou surpreendido, ano após ano, com as imagens que aparecem e com a criatividade dos participantes.

Já pensou voltar a concorrer? Ou preparar outro trabalho, mesmo que não seja para concurso?

Gostava de fotografar aqui os parques de Sintra. Mas, como disse, o nível é muito elevado. A participação é paga no concurso, convém que o trabalho seja de qualidade. Mas é uma excelente oportunidade para se divulgar os espaços, as aves, porque o impacte que tem é enorme. O meu portfólio foi publicado praticamente em todo o mundo, excepto Portugal, o que eu acho estranho. É pena porque seria uma forma de entusiasmar as pessoas a fotografar, a pensar, a serem criativas.

Queria mudar um bocadinho de assunto. Descobri que tem um blogue, mas é de acesso restrito. O que está lá dentro é muito privado?

Não, o blogue era público. Eu escrevi durante dois anos, mas entretanto aquilo desacelerou e eu já estava a postar de semana a semana e acabei por desactivar e está praticamente morto.

Aproveito que estamos a falar da vida privada para lhe perguntar se é uma pessoa preocupada com o meio ambiente?

Claro.

E isso tem repercussão nas pequenas acções do quotidiano?

Claro, nem as minhas filhas deixavam que fosse de outra forma. Como disse, eu agora até faço agricultura biológica, que é uma oportunidade para fazer compostagem. Em casa tudo se recicla, tudo é reutilizado, os resíduos são separados por categoria, etc.

A agricultura biológica surgiu há pouco tempo?

Há dois, três anos. É uma oportunidade de ter produtos alimentares de qualidade.

Já tem feito alguns pratos?

Não. Mas é uma forma de passar o tempo, aprender, estar em contacto com a natureza.

Tem um olhar cuidado sobre a natureza. Acha que ela está a mudar?

As alterações climáticas tocaram em tudo... Eu não sou propriamente conhecido pelo meu optimismo, mas, não é só isso, nós devíamos ter muito mais cuidado. Nomeadamente com a utilização do espaço onde se constrói infra-estruturas, às vezes contra todas as regras que nós criamos. Ignoramos reservas agrícolas, ignoramos reservas ecológicas, áreas protegidas e não devíamos. Não devíamos fazer nem deixar que o fizessem. Há um determinado nível em que as coisas deixam de funcionar. Quer dizer, quando faço uma barragem num rio pouco intervencionado, para mim é como deitar uma bomba atómica.

Então vêm aí algumas bombas atómicas...

Pois e julgo que provavelmente havia outras alternativas. Eu ando a dizer isto... Eu tenho um problema com barragens, porque de facto a maior parte da população não imagina o impacte que têm localmente, regionalmente, globalmente. É provavelmente das obras de engenharia com mais impacte sobre o ambiente e fazem-se barragens como se não tivesse nenhum. Precisamos de reduzir as emissões? Claro que precisamos, mas por outro lado aumentam-se os transportes, para a pessoa pensar duas vezes se leva o carro ou se vai de transporte público. Há uma série de incoerências...

Já que lecciona políticas ambientais também lhe pergunto quais as suas expectativas relativamente ao novo Governo e uma nova ministra do Ambiente, que não é só do ambiente...

Não tenho expectativa porque, nestes momentos [de crise], tudo o resto fica para segundo plano.

Em alturas de crise não se fala de ambiente?

Exacto. Não se fala, mas devia-se. Aliás, há medidas que vão em sentido contrário do que deviam. Eu devo incentivar o uso de transportes públicos... É certo que os transportes têm de ser sustentáveis em termos económicos, mas, quer dizer, temos de tentar fazer a coisa de outra maneira.

Por fiscalização de quem não paga, por exemplo?

Exactamente. Aliás, nós pagamos já uma série de taxas altíssimas associadas ao consumo. Eu dou-lhe o meu exemplo. Tento reduzir ao máximo o consumo de água e depois vejo a factura... Ou seja, por muito que eu reduza o consumo, as taxas fazem com que eu pague exactamente o mesmo e isso não leva ninguém à poupança de um recurso.

Qual o nosso papel no meio disto tudo?

Acho que temos de ser mais críticos. Eu disse críticos, não disse maldizentes. O que acontece é que nós passamos a vida a dizer mal, mas somos pouco críticos.

Veja aqui o portfólio "Folhas", com que Henrique Souto venceu o IGPOTY
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