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Cimeiras do Clima
15/06/2011
“É benéfico promover a união de esforços a um nível local para intervir num problema global”
Carlos Teixeira Gonçalves
As cimeiras mundiais não são a melhor forma de enfrentar o aquecimento global, pois é difícil coordenar esforços. Este é um dos resultados de um estudo lançado pelos investigadores portugueses Francisco C. Santos, do Departamento de Informática da Universidade Nova de Lisboa, e Jorge M. Pacheco, de Matemática e Aplicações da Universidade do Minho. Se quer saber mais e esclarecer dúvidas (o que é a teoria dos jogos, por exemplo), veja a explicação “cozinhada” pelos dois investigadores e enviada ao Planetazul por email.
“Teoria dos Jogos”, “tragédia dos comuns”. Muitos termos complicados que permitiram chegar a uma conclusão que o público geral percebe: as grandes cimeiras climáticas não vão resultar na luta contra o aquecimento global. Qual é a razão e como chegaram a esse resultado?

No nosso dia-a-dia encontramos situações onde todos beneficiam independentemente do contributo de cada um, sendo a sustentabilidade ambiental apenas um exemplo. São os chamados “bens comuns”. Podemos pensar nos benefícios sociais como um bem comum, em que é necessário que uma boa parte de nós contribua (por exemplo, sob a forma de impostos) para que estes subsistam. Outros exemplos clássicos envolvem a exploração de recursos naturais, que podem ser explorados de forma descontrolada por cada indivíduo. A exploração excessiva de recursos piscatórios ou de pastoreio, ou a poluição atmosférica e de linhas de água representam situações paradigmáticas onde os interesses (e benefícios) individuais se sobrepõem muitas vezes ao interesse colectivo. A “tragédia dos comuns” surge precisamente quando o sucesso imediato da exploração egoísta leva a que todos adoptem esta atitude, acabando todos por perder a totalidade dos recursos. Neste momento, está em jogo o nosso futuro no planeta, que vai depender das nossas acções, que poderão contribuir para evitar esta “tragédia”. Contudo, para tal, temos de a compreender ou descrever de uma forma objectiva. A “teoria de jogos” é uma das ferramentas matemáticas usadas para formular estes dilemas que colocam frente a frente o interesse individual e o colectivo. Através desta teoria, analisámos a tendência que os indivíduos possuem para contribuir (e salvar o planeta) sob diversas condições. Entre elas, tentámos compreender como indivíduos (necessariamente muito simples, dada a complexidade de descrever matematicamente um indivíduo capaz de decisões múltiplas) reagem a dilemas deste tipo quando participam num único grupo de decisão de grandes dimensões, tal como nas grandes cimeiras mundiais. A conclusão é clara. É muito difícil coordenar esforços, levando a que todos os agentes desistam de cooperar, assim conduzindo à já mencionada “tragédia dos comuns”.

Os resultados do “Risk of Collective Failure Provides an Escape from the Tragedy of the Commons” ( Risco de fracasso colectivo proporciona uma saída da Tragédia dos Comuns) demonstraram que as tomadas de decisão em pequenos grupos aumentam a probabilidade de que as pessoas coordenem esforços. Ou seja, os acordos locais e regionais são mais eficientes.

Precisamente. Contrariamente à situação de um só grupo (ou cimeira) de grandes dimensões onde todos agentes participam, se os agentes estiverem organizados em vários grupos de pequenas dimensões, observa-se que os agentes tendem a contribuir de forma generalizada. A soma de todos estes acordos locais leva a uma resolução mais facilitada do problema global. Este resultado indicia que talvez estejamos presentemente a tentar obter acordos a um nível que não é o mais favorável. Por outras palavras, o nosso modelo mostra que é benéfico promover a união de esforços a um nível local para intervir eficazmente num problema global. Importa ainda referir um aspecto muito importante que o nosso modelo aborda de forma explícita pela primeira vez. É que nós investigámos qual o impacto, no comportamento colectivo, da existência de um risco de o nosso objectivo falhar. E aqui os resultados são surpreendentes: o risco não altera o cenário de tragédia dos comuns já referido no caso das cimeiras mundiais, ou seja, naquelas em que há apenas um grupo envolvendo todos os decisores. Já quando os decisores se dividem em múltiplos grupos de tamanho mais pequeno, a percepção individual do risco desempenha um papel fundamental. Quanto maior é esta percepção, mais fácil se torna evitar a tragédia dos comuns, salvando assim o planeta.

Se em grandes cimeiras o ganho é maior para quem não coopera, porque insistimos em fazê-las? O que lhe queria perguntar é se devemos mudar o sistema e por onde começar para agilizar o combate às alterações climáticas?

Certamente deveremos procurar a melhor configuração ou um nível de discussão mais eficaz, de modo a que os acordos e a coordenação entre todos os intervenientes seja mais acessível. Ao sugerirmos que a cooperação colectiva é mais fácil de atingir de forma distribuída, envolvendo regiões, cidades, ONGs e, em última análise, todos os cidadãos, estamos a propor uma visão “bottom-up” do problema. Além disso, ao promover acordos sectoriais ou regionais, abrimos as portas à diversidade da estrutura económica e política de todos os intervenientes, que, tal como nós mostramos no artigo, tem um impacto significativo no número de decisores que, no final, acaba por cooperar (contribuindo, portanto, para mitigar os efeitos do aquecimento global). Com efeito, a existência de agentes “centrais” que eventualmente participem em mais acordos do que outros, gera uma diversidade política e de influências que mostramos ser benéfica para a cooperação. Basta que estes elementos-chave decidam contribuir para que se crie um efeito “bola de neve” capaz de influenciar as escolhas dos outros intervenientes. Todos estes efeitos resultam da existência de uma multiplicidade de plataformas de discussão e de decisão, que talvez não exista neste momento.

Para atingirmos a sustentabilidade no planeta é necessário que todos se envolvam. No "press-release" que disponibilizaram escreveram que “a mitigação de perdas futuras vai depender da percepção que cada indivíduo tem sobre o problema”.

Este é um dos pontos centrais da nossa contribuição. Mostrámos como o comportamento colectivo face à mitigação dos efeitos das mudanças climáticas depende fortemente da percepção do risco associado ao problema que cada indivíduo possui. Enquanto, de uma forma geral, no mundo ocidental a percepção dos riscos ambientais é significativa, esta visão não é necessariamente generalizável para o resto do mundo. Muito tem de ser feito nesse sentido, e os países desenvolvidos têm mais uma vez um papel determinante, pois ocupam um lugar central na teia de interesses da rede económica e politica global. A “bola de neve” ou uma virulência de políticas que visam a sustentabilidade ambiental terá necessariamente de partir do “primeiro mundo”.

Exagerando. Estes resultados aumentam ou diminuem as probabilidades de sobrevivência?

A compreensão dos enredos das tomadas de decisão entre humanos é sempre um assunto delicado e de difícil análise, mas de uma enorme importância para o entendimento dos mecanismos individuais que determinam os comportamentos colectivos que desejamos. Este problema torna-se ainda mais complexo quando as decisões (causas) e os resultados (efeitos) estão desfasados no tempo, como é o caso dos problemas ambientais. Nesse sentido, qualquer contribuição para o entendimento dos mecanismos que nos levam a cooperar aumentam as nossas probabilidades de sobrevivência. Este trabalho representa um pequeno passo na compreensão da cooperação entre humanos. Nesse sentido, pensamos que são úteis no sentido que nos podem ajudar a estruturar uma sociedade mais sustentável e solidária.
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