| 21/07/2010 | | Sustentabilidade – Contributos para o desenvolvimento e integração da componente Social | | Por Dalila Antunes, especialista em Psicossociologia e directora do INTEC | | | | | | |  “O mundo está em constante desenvolvimento, e os conceitos que vamos criando também. O conceito de sustentabilidade tem evoluído ao longo do tempo em função das realidades que o Homem vai criando, das suas necessidades e das tendências.” SABER, o canal de ligação entre os especialistas e os leitores do Planetazul.
| | | | Sustentabilidade – conceito tridimensional | Podemos pensar que existiu uma fase inicial em que a principal tendência era o desenvolvimento económico e a sustentabilidade económica das entidades. Os problemas ambientais que emergiram conduziram à necessidade de ligar o desenvolvimento económico ao ambiente. Este conceito integrado de sustentabilidade está associado ao relatório de Brundtland que destaca a sustentabilidade como a capacidade de suprir as necessidades actuais sem comprometer as gerações futuras. Se a preocupação com as gerações futuras estava de alguma forma presente no conceito, e se pode invocar que existiria de alguma forma uma dimensão social, a verdadeira inclusão de preocupações sociais no conceito de sustentabilidade adquire evidência em 1995, aquando da Cimeira de Copenhaga. Entramos então num período em que a sustentabilidade emerge como um conceito integrado de três componentes: economia, ambiente e sociedade; sendo que para se conseguir essa integração será desejável que um projecto pense em cada uma das dimensões para depois as articular. | | | Da teoria à prática | Mas a própria aplicação dos conceitos teóricos à vida prática é morosa e implica alguns ajustes. Há uns tempos não era raro ouvir falar em Sustentabilidade Económica, um conceito que parecia já querer integrar uma componente ambiental, mas que reflectia sobretudo a ideia do sucesso económico duma entidade ao longo do tempo, mais que uma integração entre ambiente e economia. Hoje em dia ainda se ouve falar em sustentabilidade ambiental, um conceito que parece remeter essencialmente para uma gestão que tem em consideração também os aspectos ambientais. Claro que qualquer uma das expressões anteriores constituem em si mesmas uma redundância, já que a sustentabilidade sendo um conceito integrado, é económica, ambiental e social. Mas o seu uso reflecte sobretudo uma caminhada na tradução do conceito teórico para a prática quotidiana. Uma reflexão que indica que se os aspectos económicos e ambientais já vão fazendo parte da realidade, a componente social tem ainda de percorrer algum caminho. | | | A componente Social | Se é certo que as dimensões económicas e ambientais se encontravam já nos últimos 5 anos razoavelmente desenvolvidas e estabilizadas, a componente social carecia ainda de alguma imaturidade. Os indicadores sociais surgiam maioritariamente como dados socioeconómicos e raramente eram considerados pelos projectos indicadores puramente sociais. As poucas excepções que podem ser apontadas referem-se mais a projectos de Responsabilidade Social das Organizações (RSO), podendo identificar-se a título de exemplo alguns dos indicadores desenvolvidos pelo Instituto Ethos. Nos últimos 5 anos têm sido dados alguns passos importantes no desenvolvimento destes indicadores integrando projectos de sustentabilidade, que devem ser sublinhados. Focam-se a seguir dois tipos de iniciativas de promoção da sustentabilidade que nos parece que podem contribuir para ajudar a promover projectos de excelência. | | | ECO XXI e Melhores Municípios para Viver | O ECO XXI e os Melhores Municípios para Viver, são programas que procuram avaliar a sustentabilidade dos municípios. O primeiro, desenvolvido pela ABAE consiste na avaliação dos municípios num conjunto amplo de mais de vinte domínios. Estes domínios têm um carácter marcadamente ambiental, mas implica em vários aspectos uma articulação entre ambiente e outras dimensões da sustentabilidade. Salienta-se nomeadamente os indicadores referentes à educação ambiental, ao emprego na área do ambiente, e o turismo sustentável; que marcam uma clara articulação entre ambiente e aspectos sociais e económicos. O M2V - Melhores Municípios para Viver é uma iniciativa do INTEC – Instituto de Tecnologia Comportamental que conta com o apoio do jornal semanário SOL na divulgação anual dos resultados. Este projecto avalia os municípios em 10 domínios relativamente independentes: Turismo, Economia e Emprego; Educação e Formação; Ambiente; Acessibilidade e Transportes; Urbanismo e Habitação; Saúde; Diversidade e Tolerância; Identidade, Cultura e Lazer; Felicidade. Além de incluir um indicador raramente avaliado (Felicidade), o aspecto mais distintivo do projecto consiste na avaliação de cada indicador de acordo com duas dimensões. Se por um lado são recolhidos dados relativos a indicadores factuais, provenientes de estudos desenvolvidos pelo INE e outras entidades públicas; estes dados são complementados por avaliações mais subjectivas, realizadas pelos próprios munícipes dos concelhos avaliados. Assim, se por exemplo para a educação existem indicadores referentes a nº de alunos por escola e nº de alunos por professor; estes são complementados pela avaliação que os munícipes fazem da qualidade do ensino no seu município. | | | One Planet Living | | O programa One Planet Living é uma iniciativa desenvolvida em conjunto pela BioRegional e pela World Wide Fund (WWF). O conceito consiste em 10 princípios: Cabono Zero, Resíduos Zero, Transportes Sustentáveis, Materiais Sustentáveis, Alimentação Local e Sustentável, Água Sustentável, Ordenamento do Território e Biodiversidade, Cultura e Património, Equidade e Economia Local, Saúde e Felicidade. Estes princípios podem ser aplicados a indivíduos, organizações, ou projectos específicos, sendo que para cada princípio devem ser estabelecidas metas a curto, médio e longo prazo, bem como um conjunto de planos operacionais que permitam atingir as mesmas. O programa não só detém uma visão integrada de sustentabilidade (é necessário integrar as diferentes dimensões dentro de cada princípio, por ex. Transportes Sustentaveis, e cruzar informação entre princípios. Por ex. as emissões previstas no âmbito dos Planos Operacionais do princípio Transportes Sustentáveis têm de ser contabilizadas para efeito do princípio Carbono Zero), mas integram também indicadores tipicamente sociais que têm de ser desenvolvidos no âmbito dos princípios da Cultura e Património (implicam o desenvolvimento de indicadores ao nível da Identidade e sua promoção), Equidade (requer a definição de medidas que promovam indicadores de justiça social), e a Felicidade (que comporta a definição de indicadores que recaem claramente no domínio da percepção individual). | | | Perspectiva de futuro | Olhando para o trabalho que vem sendo desenvolvido nos diferentes campos da área ambiental tem-se caminhado mais que uma análise multidisciplinar das situações, para uma análise interdisciplinar (que além de várias disciplinas obriga à sua interligação). Neste âmbito, também a análise do estilo de vida das populações e das suas percepções deve ser contemplada quando se procura mobilizar os indivíduos e a sociedade para a acção. Existem pois indícios de que estamos a caminhar para a verdadeira sustentabilidade, para o momento em que as três dimensões deixam de fazer sentido apenas na teoria e passam a ser efectivamente pensadas e valorizadas em conjunto. | | |
| CURRICULUM VITAE | |  Dalila Antunes, Licenciada em Psicologia pela Universidade de Lisboa (1999) e Master of Science em Psicologia Ambiental pela University of Surrey U.K. (2004). Directora geral da empresa Factor Social, e membro da Direcção do INTEC – Instituto de Tecnologia Comportamental, colabora regularmente com Associações de Defesa do Ambiente e com diversas Universidades nacionais. Membro da direcção do Movimento Liberal Social. |
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